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A sétima arte, como o cinema era chamado, começou buscando elementos em cada uma das seis artes anteriores a ela. Dos esquetes do teatro, vieram os primeiros filmes de Chaplin e seu personagem Carlitos, caracterizado pelo humor, a poesia e crítica social. Do retrato da figura Humana na pintura, originou-se “Joana D’Arc”, de Carl Dreher, e, em 1919, “O Gabinete do Doutor Caligari”, de Robert Wiene, inspirado no Expressionismo Alemão, que apresenta a realidade de forma subjetiva, por meio de distorção de rostos e ambientes e de alto contraste luz e sombra, como um retrato da Alemanha pós-guerra. Os movimentos de câmera, os ângulos das tomadas e a estrutura dos cenários contribuíam para se evidenciar o país devastado.
Mas foi principalmente da literatura clássica, com suas narrativas lineares e temporais, que deu origem a narrativa clássica do cinema, na qual a história, que antes era marcada pela simultaneidade de ações num único plano, passa a ser apresentada de forma linear (começo, meio e fim) e a montagem dos planos obedece a uma seqüência cronológica. Essa é a forma de narrar a maior parte dos filmes, de bíblicos como “Os Dez Mandamentos” a clássicos como “…E o Vento Levou”.
Assim como a literatura, o cinema também se modificou, rompeu padrões, evoluiu. Em 1915, David Griffith revoluciona a linguagem cinematográfica com “O Nascimento de uma Nação”, utilizando recursos como o close, grandes planos, movimentos de câmera e utilização de paisagens naturais como locações. Em 1916, faz “Intolerância”, com montagem e narrativa paralelas, alternando, de duas ou mais linhas de ação, quatro histórias diferentes, passadas em épocas diferentes.
O “Encouraçado Potemkin” (1925), de Serguei Eisenstein, é uma homenagem à Revolução Russa e uma renovação das técnicas de iluminação, montagem com imagens sucessivas e movimentos de câmera, acentuando a marcação do ritmo do filme. Como não lembrar da sequência do carrinho de bebê descendo lentamente a escadaria repetida em “Os Intocáveis“?
“Um Cão Andaluz” (1928), de Luis Buñuel em parceria com Salvador Dalí, expressa os desejos irracionais através de metáforas visuais, sem preocupações com a temporalidade ou a linearidade da narrativa. O filme é considerado a obra-síntese do Surrealismo no Cinema.
Um dos primeiros filmes a contar toda a história em flashback é “Cidadão Kane”, de Orson Welles (1941), que, com um enredo não-linear, subverte a narrativa cronológica. Além de começar pela morte do protagonista e de sua última e enigmática palavra (Rosebud), a história de Kane é reconstituída por vários personagens que conviveram com ele, recheado de inserts, lembrando muito o romance “O Som e a Fúria”, de Willian Faulkner, escrito doze anos antes, todo narrado na primeira pessoa, por diferentes personagens. Alain Resnais parte do romance “Em Busca do Tempo Perdido”, de Marcel Proust e faz “O Ano Passado Em Marimbad”, onde a narrativa é guiada pela memória e não pela cronologia dos fatos.
Jean-Luc Godard, desconstrói a linearidade da narrativa e filma com a câmera na mão, rompendo os padrões com “Acossado”, em 1959. Esse filme é um dos primeiros da Nouvelle Vague.
Em “O Desprezo”, ele faz “o filme dentro do filme”, o metacinema. Enquanto filma Ulisses, o clássico grego, o diretor (Fritz Lang, interpretando ele mesmo) do filme desenvolve a teoria de que Penélope não era fiel ao herói. Mas é a sua mulher que é amante do produtor do filme. É a desmistificação do cinema, por seus truques e efeitos, mostrando sua capacidade de criar ilusões. É também a desconstrução da imagem, evidenciando os bastidores da produção do filme, o making of.
A Nouvelle Vague, representada pelos seus diretores com Godard e Resnais, propõe a quebra da narrativa clássica, o fim da linearidade, e a valorização da direção cinematográfica por meio do filme dito de autor.
No Brasil, o Cinema Novo, tal como a Nouvelle Vague é também uma proposta de ruptura. Nelson Pereira dos Santos é o precursor, em 1956, com “Rio 40 Graus” . Em 1964, Glauber Rocha faz “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Os filmes são caracterizados pela rejeição dos valores e da linguagem estética da produção de estúdio, fazem pouco uso das tecnologias do cinema (por falta de verba de produção mesmo), utilizam som direto (captado diretamente no set de filmagem) e tem como cenários as locações externas. Além de retratarem as contradições socioculturais e as características econômicas de um país dependente e subdesenvolvido, temas ausentes até então no Cinema Brasileiro.
O cinema contemporâneo, ou pós-moderno, conta sua própria história pela combinação de elementos de diferentes gêneros e expectativas de gêneros, um mix de nostalgia do glamour hollywoodiano e do punk, mostrando um inconsciente coletivo no processo de identificar seu próprio presente e, ao mesmo tempo, o fracasso dessa tentativa recombinando os esteriótipos do passado. Segundo Steven Connor, a marca do cinema pós-moderno é a presença simultânea de diferentes formas de pastiche e a multiplicidade estilística. Entre a fetichização da imagem, a banalização das superfícies e a proliferação dos clichês narrativos no cinema e nos programas de televisão, como ainda é possível ver a imagem com uma ânsia de novidade?
Nos filmes é cada vez mais presente o questionamento do estatuto da imagem e da representação, do cinema como um registro do cotidiano, vendo o cinema como um simulacro em que a imagem se bifurca entre distintos caminhos que conduzem para diferentes idéias de temporalidade. O ideal desse cinema é o de fragmentar, absorvendo a linguagem do videoclipe, como um fragmento visual narrativado. O videoclipe é caracterizado por uma montagem acelerada de imagens que acompanham o ritmo da música.



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